Meu sócio trabalha menos que eu e a retirada é igual

Você abre de manhã, fecha à noite e ainda resolve o problema que aparece no sábado. Ele aparece de vez em quando, opina sobre o que você decidiu e recebe exatamente o mesmo. A conta não fecha faz tempo, e você ainda não disse isso em voz alta para ele porque simplesmente não sabe como começar.

Falar sobre a minha sociedade
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contribuições que você provavelmente não conta
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separação que resolve quase todo o impasse
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conversas dessas que melhoram sendo adiadas
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coisas que a sociedade remunera, e são diferentes

A separação que resolve quase todo o impasse

Sociedade remunera duas coisas diferentes, e misturá-las é a origem de quase toda briga: o capital investido e o trabalho executado. Quem colocou dinheiro tem direito ao lucro na proporção da própria cota. Quem trabalha na operação tem direito a ser pago por esse trabalho, e isso se chama pró-labore, não distribuição de lucro.

Quando essas duas coisas viram uma retirada só, quem trabalha mais acaba financiando quem trabalha menos sem que ninguém jamais tenha combinado isso.

Nenhuma dessas conversas melhora sendo adiada: o ressentimento não se dissolve com o tempo, ele se acumula e depois sai numa discussão sobre outra coisa, geralmente pequena e na frente de outras pessoas. Quanto mais tarde ela acontece, mais parece acusação em vez de ajuste de rota. Quem fica esperando o momento certo espera para sempre, porque momento certo para esse assunto simplesmente não existe.

As três contribuições que você não conta

O capital que ele colocou e você não. Se a entrada de capital veio dele, parte daquela retirada é retorno de investimento e não pagamento por hora trabalhada.
O que ele traz sem estar presente. Relacionamento que gera cliente, aval no banco, nome conhecido na praça. Nada disso aparece na rotina do dia a dia e às vezes é o que sustenta o negócio.
O risco que ele carrega igual. Se o negócio der errado, a dívida vai ser dos dois igualmente. Isso tem um valor real mesmo quando a presença diária não tem.

Quando o desequilíbrio é temporário

Nem toda diferença de dedicação exige mudança de estrutura.

Doença, luto ou filho recém-nascido. Uma sociedade que não suporta seis meses difíceis de um dos dois não é sociedade coisa nenhuma: é contrato de prestação de serviço com o nome errado.
Fase de obra, mudança ou implantação. Projetos assim concentram trabalho num dos lados por natureza, e a situação costuma se inverter no projeto seguinte.
Curso ou formação que beneficia o negócio. Vale combinar o prazo e o que exatamente volta depois, para que aquilo não vire uma ausência permanente sem contrato nenhum.
O que separa temporário de permanente é a data. Uma situação com prazo dito em voz alta é um acordo entre os dois; sem prazo nenhum, ela vira o novo normal em poucos meses.
Registre mesmo quando for tranquilo. Uma simples mensagem combinando o período evita que a memória de cada um conte histórias bem diferentes daqui a dois anos.

Como medir sem transformar em vigilância

Precisa de dado, e o dado não pode virar controle de ponto entre sócios.

Meça responsabilidade, não hora. Quem responde por vendas, quem responde pela operação, pelo financeiro e pelas pessoas. Sociedade se divide por área de responsabilidade, não por relógio de ponto.
Liste as decisões do último trimestre. Anote quem tomou cada uma delas. É o retrato mais honesto que existe de quem está de fato conduzindo o negócio.
Veja quem é procurado quando dá problema. A equipe e os clientes já sabem essa resposta de cor, e ela costuma ser bem mais eloquente que qualquer planilha de horas.
Combine o levantamento antes de fazer. Chegar com dados coletados em segredo transforma a conversa numa emboscada, e a postura defensiva que vem depois trava tudo por meses.
Aceite que o número não decide sozinho. O número mostra que o desequilíbrio existe; o que fazer a respeito continua sendo negociação entre os dois.

Antes de reclamar, considere que você pode ter criado a situação: muita gente que hoje faz tudo passou anos não delegando, corrigindo o que o sócio fazia e assumindo tarefa por achar mais rápido resolver sozinho. O sócio foi se afastando porque cada coisa que ele tocava era refeita. Isso não anula o desequilíbrio atual, mas muda o pedido: em vez de "faça mais", vira "vou parar de refazer e preciso que você assuma isto". É uma conversa bem diferente, e com muito mais chance de funcionar.

O que costuma estar por trás

Ele nunca soube o que fazer

Função nunca definida desde o começo é o motivo mais comum de ausência de um sócio.

Ele tem outra renda

Quem não depende financeiramente do negócio acaba naturalmente investindo menos tempo nele.

Ele acha que já fez a parte dele

O sócio que construiu todo o começo às vezes se considera quitado com a empresa.

Ele desistiu e não disse

A ausência às vezes é uma saída já em curso que nenhum dos dois verbalizou ainda.

O primeiro passo

Escreva o que você faz num mês. Sem adjetivo.
Peça que ele escreva a dele. Antes de conversar.
Marque hora fora do expediente. Sem pressa.
Abra pela estrutura da retirada. Não pelo esforço.
Leve os quatro desenhos possíveis. Como opções.

Como começar a conversa

A abertura decide se vira negociação ou briga, e ela é escolhida por você.

Fale de estrutura, não de esforço. Dizer que "o nosso desenho de retirada nunca foi revisto desde o começo" abre uma conversa; dizer "você trabalha menos que eu" abre uma defesa. O assunto de fundo é exatamente o mesmo e o resultado é oposto.
Marque hora e lugar. Marque fora do expediente, sem cliente por perto e sem hora para acabar. Conversa desse tipo puxada no corredor termina mal em praticamente todos os casos.
Comece perguntando como ele vê. Muita gente descobre justamente nessa hora que o sócio também se considera sobrecarregado, por motivos que nunca chegaram a ser ditos em voz alta.
Traga números, não impressões. Leve horas, tarefas e decisões efetivamente tomadas. Percepção contra percepção nunca se resolve; lista contra lista se ajusta em uma conversa.
Proponha revisar, não corrigir. Revisão é rotina de qualquer sociedade saudável; correção implica que alguém estava errado esse tempo todo, e ninguém aceita isso bem.

O exercício que costuma desarmar: cada um escreve, separadamente, tudo o que faz no negócio durante um mês, e depois vocês trocam as listas. Não é para julgar: é para ver. Quase sempre aparecem coisas que o outro nunca soube que existiam, dos dois lados. Quem reclama de fazer mais frequentemente descobre que o sócio resolve fornecedor, banco e imposto sem nunca comentar. E quem é acusado de fazer menos costuma reconhecer o desequilíbrio quando vê a lista do outro escrita, o que nunca acontece quando ouve a acusação falada.

Os quatro desenhos possíveis

Pró-labore diferente

Cada um passa a receber pelo trabalho que efetivamente faz, e o lucro continua seguindo a cota.

Reequilibrar as cotas

Quem trabalha mais vai aumentando a própria participação societária ao longo do tempo.

Redistribuir tarefas

Às vezes ele faria bem mais coisa e simplesmente nunca foi pedido de forma clara.

Contratar para a lacuna

Se nenhum dos dois quer aquela função, ela é um custo a ser pago, não uma disputa a ser vencida.

Como isso muda conforme a origem da sociedade

De onde ela veio explica boa parte do desequilíbrio atual.

Sócio que entrou com dinheiro. Nunca chegou a ser combinado que ele trabalharia na operação, e cobrar presença agora significa mudar o acordo original.
Sócio de origem familiar. A cota veio por herança ou por decisão de uma geração anterior, e a conversa carrega uma camada afetiva que nenhuma mudança de estrutura resolve sozinha.
Amigos que abriram juntos. Cotas iguais definidas no entusiasmo do primeiro mês, sem nenhuma discussão sobre função, é de longe o caso mais comum de todos.
Sócio que já trabalhou muito e parou. Ele construiu boa parte do negócio no passado e hoje colhe. Isso pode ser perfeitamente legítimo, mas precisa estar dito em voz alta.
Sociedade entre cônjuges. A falta de separação entre a casa e a empresa é o problema real ali, e a divisão de retirada é apenas o sintoma que apareceu primeiro.

O que fazer se ele não aceitar mudar

Existe resposta para esse cenário, e ela não é aguentar calado.

Confirme se ele entendeu o pedido. Boa parte das recusas é só a reação inicial ao susto. Voltar ao assunto uma semana depois, com calma, muda a resposta com frequência.
Proponha um teste com prazo. Propor seis meses com o desenho novo e uma data de reavaliação já marcada é bem mais fácil de aceitar que uma mudança apresentada como definitiva.
Reduza o que você faz, em vez de exigir que ele aumente. Parar de cobrir a lacuna faz o desequilíbrio aparecer sozinho, sem nenhum discurso da sua parte. É desconfortável de fazer e funciona.
Ponha um valor na saída. Se não existe acordo possível, saber exatamente quanto vale a cota transforma um impasse emocional numa negociação com número na mesa.
Não use o caixa como arma. Reter a distribuição, criar despesa artificial ou tirar o acesso dele aos sistemas são movimentos que geram processo judicial e encerram qualquer chance de acordo.

Os sinais de que já passou do ponto

Alguns indícios mostram que a conversa deixou de ser sobre divisão.

Você já calculou quanto ganharia sozinho. Quem já fez essa conta de cabeça mais de uma vez decidiu alguma coisa lá dentro e ainda não admitiu para si mesmo.
A equipe percebe e comenta. Quando o funcionário sabe exatamente quem trabalha e quem não trabalha, a autoridade dos dois sócios já está comprometida.
Vocês evitam decidir juntos. Decisão tomada sozinho só para não precisar discutir é o começo de duas empresas convivendo dentro da mesma.
O assunto vira piada em público. Ironia sobre o sócio feita na frente de terceiros é ressentimento que já não está cabendo mais dentro.
Você já procurou o contrato social. Ir ler a cláusula de saída escondido, sem contar a ninguém, é o sinal mais claro de todos eles.

Sobre pró-labore, distribuição e contrato social

Vale conhecer os contornos, sem tratar isto como orientação contábil ou jurídica.

Pró-labore é a remuneração pelo trabalho do sócio na empresa e tem natureza distinta da distribuição de lucros. Ele integra a base de contribuição previdenciária, é declarado como rendimento tributável da pessoa física e pode ser fixado em valores diferentes para cada sócio, justamente porque remunera trabalho e não participação. A distribuição de lucros, por sua vez, segue em regra a proporção das cotas, embora o contrato social possa prever divisão desproporcional, desde que haja previsão expressa e a operação não seja usada apenas para deslocar rendimento tributável.

Alterar o desenho exige, quase sempre, alteração do contrato social, com registro na junta comercial, e depende do quórum previsto no próprio contrato ou na lei. Também vale observar que retirada de lucros acima do que a contabilidade apurou pode ser reclassificada pela fiscalização, com efeito tributário retroativo, e que sócio administrador tem deveres próprios, respondendo em certas hipóteses por atos de gestão. Se a conversa caminhar para exclusão ou saída, existem procedimentos específicos, com regras de apuração de haveres e prazos, que variam conforme o tipo societário. Como cada caso depende do que está escrito no seu contrato, converse com o seu contador e, se houver risco de litígio, com um advogado societário antes de formalizar qualquer mudança.

Quando vale chamar alguém

A conversa é sua e ninguém pode ter no seu lugar, mas a estrutura por trás dela pode ser desenhada com ajuda.

Vale um contador para separar pró-labore de distribuição. Se a divergência é sobre investir em marketing, leia meu sócio não acredita em marketing. E se a sociedade já acabou, leia a sociedade acabou.

Como reequilibrar uma sociedade em que um trabalha mais

  1. Separar o que remunera capital do que remunera trabalho Misturar as duas coisas é a origem de quase toda briga.
  2. Listar as contribuições dele que não aparecem na rotina Aval, relacionamento e risco carregado têm valor.
  3. Cada um escrever sozinho o que faz num mês, e trocar Lista contra lista se ajusta; percepção contra percepção, não.
  4. Abrir a conversa pela estrutura, nunca pelo esforço 'O desenho nunca foi revisto' abre negociação; a outra frase abre defesa.
  5. Marcar hora e lugar, fora do expediente Conversa dessas puxada no corredor termina mal.
  6. Perguntar primeiro como ele enxerga a divisão Muita gente descobre que o sócio também se acha sobrecarregado.
  7. Escolher entre pró-labore diferente, cota, tarefa ou contratação São quatro desenhos possíveis, e não só um.
  8. Propor um teste de seis meses com reavaliação marcada Mais fácil de aceitar que mudança definitiva.
  9. Parar de cobrir a lacuna em vez de exigir que ele aumente O desequilíbrio aparece sozinho, sem discurso.
  10. Formalizar com contador e, se houver litígio, com advogado Alterar retirada mexe em contrato social e em tributo.
Cleber Barbosa, consultor de marketing digital em Ribeirão Preto
Autor
Cleber Barbosa
Consultor de Marketing Digital, SEO e Tráfego Pago — Ribeirão Preto, SP

Vinte anos de marketing digital e 43 cases documentados. Trabalho com SEO técnico, tráfego pago, growth hacking e IA aplicada a negócios. Sociedade remunera capital e trabalho, e misturar as duas coisas é a origem de quase toda briga. Escrevo estes roteiros com o que aplico em diagnóstico real.

Sobre o autor
Perguntas frequentes

Dúvidas sobre desequilíbrio na sociedade

A retirada tem que ser igual?

A distribuição de lucro segue a cota; o pagamento pelo trabalho não precisa seguir. São duas coisas diferentes.

Como começo essa conversa?

Pelo desenho da sociedade, não pelo comportamento dele. Discutir estrutura é negociação; discutir esforço vira acusação.

E se ele não achar que trabalha menos?

É o cenário mais comum. Escrever o que cada um faz, sem adjetivo, costuma resolver mais que discutir percepção.

Posso simplesmente reduzir o que ele recebe?

Não unilateralmente. Alteração de retirada mexe em contrato social e em obrigação tributária, e exige acordo.

Um terceiro ajuda a destravar?

Contador para a estrutura e, se a conversa travar, um terceiro neutro. Advogado só quando o caminho for a saída.

E se não houver acordo?

Aí a discussão passa a ser sobre a permanência da sociedade, e isso tem regras próprias no contrato e na lei.

Você já disse isso a ele em voz alta?

Se a resposta for não, o problema de hoje ainda não é a divisão da retirada: é a conversa que nunca aconteceu.

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