Pensei em pegar um estagiário, mas não tenho tempo de ensinar

A ideia surge sempre do mesmo jeito: você está afogado, alguém sugere um estagiário, e a conta parece boa. Só que quem está afogado é justamente quem não tem tempo de formar ninguém.

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pergunta que decide antes do orçamento
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tarefas que funcionam desde a primeira semana
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custos que não aparecem na bolsa
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estagiários que resolvem o que você não sabe fazer

A pergunta que decide antes do orçamento

Existe uma tarefa que você faz toda semana, que consome tempo e que você conseguiria explicar em meia hora? Se sim, o estagiário faz sentido. Se a resposta for "tudo o que eu faço depende de julgamento", ele vai custar tempo em vez de liberar.

Estagiário não resolve o que você não sabe fazer. Ele executa o que você já sabe e não quer mais fazer.

Os dois custos que não aparecem na bolsa: o seu tempo de acompanhamento nas primeiras semanas, que é real e costuma ser subestimado pela metade, e o custo de corrigir o que sair errado enquanto ele aprende. Somando os dois, os primeiros dois meses geralmente saem negativos. Quem entra nessa esperando ganho imediato desiste antes de chegar no ponto em que a conta vira, e perde o investimento inteiro.

As três tarefas que funcionam na primeira semana

O que é repetitivo e verificável. Cadastro de produto, organização de arquivo, atualização de planilha de controle. O erro aparece na hora e não chega até o cliente.
O que você faz mal e sem gosto. Boa parte daquele trabalho administrativo que você vem empurrando há meses é exatamente o tipo de coisa que alguém começando faz bem.
O que precisa de constância, não de talento. Publicar sempre no mesmo dia, responder dentro do mesmo prazo, conferir a mesma lista toda semana. Aqui a regularidade vale bem mais que experiência.

Quando é melhor não contratar

Existem situações em que a resposta certa é adiar, e reconhecê-las economiza meses.

Quando a demanda é irregular. Se o trabalho aparece concentrado em picos e depois some por semanas, você vai estar pagando por disponibilidade e a pessoa vai ficar ociosa, o que desmotiva os dois lados rapidamente.
Quando o processo ainda muda toda semana. Ensinar em detalhe algo que você mesmo vai mudar em quinze dias é retrabalho garantido. Estabilize o processo primeiro e delegue depois.
Quando o caixa não cobre seis meses. Contratar alguém e dispensar por falta de dinheiro custa bem mais que nunca ter contratado, e ainda queima a sua reputação como empregador na cidade inteira.
Quando você não vai acompanhar. Se as suas próximas semanas já estão completamente lotadas, a pessoa chega e fica sem instrução nenhuma, e o resultado ruim ainda vai parecer culpa dela.
Quando o que trava é decisão, não execução. Se o gargalo verdadeiro é você não conseguir tomar as decisões, colocar mais gente executando não resolve absolutamente nada.

A conta que quase ninguém faz direito

A bolsa é a menor parte, e comparar só ela leva à decisão errada.

Some bolsa, transporte e o que mais for obrigatório. Esse é apenas o piso da conta, e costuma ser o único número que aparece na conversa com o contador.
Acrescente as suas horas dos dois primeiros meses. Estime sempre alto: quem calcula duas horas por semana costuma acabar gastando cinco. Multiplique esse total pelo seu valor-hora real.
Compare com o custo de continuar fazendo. Aquelas mesmas tarefas ocupam hoje quantas horas suas por semana? É exatamente esse número que a contratação precisa vencer para se justificar.
Considere terceirizar antes de contratar. Contratar serviço avulso para exatamente a mesma tarefa, durante dois meses, custa menos e ainda revela se a demanda é constante ou apenas episódica.
Só decida com os três números na mesa. Custo de contratar, custo de continuar fazendo você mesmo e custo de terceirizar. A resposta muda conforme o negócio e até conforme o mês do ano.

O que a pessoa quer, e que quase ninguém oferece: quem procura estágio quer aprender alguma coisa que sirva depois, e isso é mais barato de dar que salário. Explicar por que a tarefa existe, mostrar o resultado que ela produz e deixar a pessoa ver o negócio funcionando custa nada e é o que faz alguém ficar, se dedicar e indicar outros. Estagiário tratado como mão de obra barata entrega exatamente o que foi contratado para entregar, e sai na primeira oportunidade melhor.

Onde encontrar sem gastar

Coordenação do curso

Um professor de área técnica costuma indicar quem realmente tem perfil, e esse filtro vale bastante.

Quem já é seu cliente

Filho, sobrinho ou vizinho de um cliente já chega com algum contexto e com referência de alguém.

Agentes de integração

Eles cuidam de toda a parte formal e cobram por esse serviço. Simplifica bastante para quem não tem estrutura administrativa.

A própria vaga publicada

Descrever a tarefa real do dia a dia, em vez de escrever "buscamos pessoa proativa", já filtra os candidatos sozinho.

O primeiro passo

Nomeie a tarefa em uma frase. Agora, sem pensar.
Conte quantas horas ela come. Por semana.
Teste terceirizar por dois meses. Antes de contratar.
Escreva o que a pessoa não faz. Também.
Confirme o formato com o contador. Antes de fechar.

Como preparar antes de a pessoa chegar

Boa parte do fracasso acontece antes do primeiro dia, e por omissão.

Escreva a tarefa em uma folha. O que é a tarefa, com que frequência ela acontece e como saber se ficou certo. Se você não consegue escrever isso numa folha, também não vai conseguir explicar, e vai acabar refazendo tudo.
Grave a primeira execução. Executar a tarefa uma única vez explicando em voz alta, com a tela sendo gravada, poupa cinco repetições da mesma pergunta nas semanas seguintes.
Deixe os acessos prontos. Sistema liberado, senha criada, e-mail configurado e ferramenta instalada antes do primeiro dia. Começar esperando acesso desperdiça justamente a semana em que a pessoa está mais disposta.
Combine o horário de tirar dúvida. Dois momentos fixos ao longo do dia evitam a interrupção constante, que é justamente o que mais irrita quem já estava sobrecarregado antes.
Defina o que ele não faz. Sem essa lista escrita, todo pedido que aparece acaba virando tarefa dele, e a função combinada se dissolve já na primeira semana cheia.

O erro que transforma estagiário em prejuízo: contratar por sobrecarga em vez de por função. Quando a motivação é "estou afogado", a tendência é jogar na pessoa tudo o que aparece, sem ordem e sem critério, e o resultado é alguém ocupado o dia inteiro produzindo pouco. Uma função definida com três tarefas claras rende mais que uma pessoa disponível para tudo, e é a diferença entre a contratação que se paga em dois meses e a que você encerra em quatro sem saber explicar por quê.

Onde ele vai errar

No que parece óbvio para você

Aquele passo que você nem chega a mencionar é justamente onde a execução dele vai travar.

Em não avisar que travou

Quem está começando tem medo de parecer incapaz e acaba ficando parado horas sem falar nada.

No tom com o cliente

A voz da empresa se aprende observando exemplo, e não lendo instrução escrita num documento.

Em fazer demais

Excesso de iniciativa sem contexto suficiente cria retrabalho, e isso precisa ser ajustado logo nas primeiras semanas.

Como isso muda por tipo de negócio

O que dá para delegar a alguém começando varia bastante.

Comércio com balcão. É de longe onde mais funciona: a tarefa é visível para todos, o erro é corrigido na hora e a pessoa aprende observando quem já faz.
Serviço técnico. Aqui o estagiário precisa começar acompanhando, e não executando sozinho. O ganho real aparece no terceiro mês, nunca no primeiro.
Área regulada. Existe limite legal claro sobre o que pode ser feito sem a supervisão de profissional habilitado, e isso precisa estar definido antes de a pessoa chegar.
Trabalho criativo. Funciona muito bem para produção e finalização, e bastante mal para concepção. Misturar essas duas coisas frustra os dois lados rapidamente.
Operação com atendimento remoto. Dá para delegar a triagem e a resposta padrão, desde que exista um roteiro escrito e uma régua clara de quando escalar para você.

Como saber se está funcionando

Dois meses é o prazo razoável para ter uma resposta clara.

Você parou de fazer aquelas tarefas. É o indicador mais direto de todos e o mais fácil de verificar sozinho. Se você ainda faz aquilo e ele também faz, você não delegou coisa nenhuma: apenas duplicou.
O número de perguntas caiu. Muita pergunta durante a primeira semana é absolutamente normal e esperado. A mesma quantidade de perguntas no segundo mês indica que a instrução não pegou.
Ele começou a apontar problema. Quem realmente entendeu a tarefa percebe sozinho quando alguma coisa está estranha, e esse é o sinal mais forte de que a formação funcionou.
Você conseguiu ficar um dia fora. Conseguir passar um dia inteiro fora sem travar nada vale mais que qualquer avaliação formal de desempenho.
Se nada disso apareceu, o problema pode ser seu. Instrução vaga demais, tarefa mal escolhida e ausência completa de acompanhamento explicam a grande maioria dos casos que não deram certo.

O que fazer quando o estágio acaba

Existe uma data de término e quase ninguém planeja para ela.

Decida com antecedência se vai efetivar. Deixar essa decisão para a última semana faz você perder a pessoa que acabou de formar para quem decidiu antes.
Se não vai efetivar, diga cedo. Avisar cedo permite que a pessoa se organize e preserva a relação, que em cidade pequena costuma reaparecer mais tarde.
Documente o que ela fazia antes de sair. Todo o conhecimento que você passou vai embora junto com ela se ninguém escrever nada, e o próximo estagiário começa do zero absoluto.
Peça a ela para escrever o próprio manual. Quem acabou de aprender aquilo explica muito melhor que quem já esqueceu há anos que aquilo um dia foi difícil.
Mantenha o contato. Um estagiário que sai bem formado indica outras pessoas, volta anos depois como profissional e às vezes até vira cliente.

Sobre estágio, aprendiz e vínculo

Vale conhecer os contornos, sem tratar isto como orientação jurídica ou contábil.

O estágio no Brasil tem lei própria e não gera vínculo empregatício quando os requisitos são cumpridos: matrícula e frequência regular do estudante em instituição de ensino, termo de compromisso entre as três partes, compatibilidade entre as atividades e a formação, supervisão por profissional da empresa e limite de carga horária, que varia conforme o nível de ensino. Bolsa e auxílio-transporte são obrigatórios no estágio não obrigatório, e há direito a recesso remunerado proporcional. Descumprir esses requisitos, especialmente usar o estagiário como mão de obra comum sem relação com o curso, descaracteriza o estágio e faz surgir vínculo de emprego com todas as verbas devidas retroativamente.

Existe ainda o contrato de aprendizagem, que é figura diferente: destina-se a jovens em formação técnico-profissional, tem registro em carteira, prazo determinado e regras próprias de percentual obrigatório para empresas de certo porte. Já contratar alguém júnior como funcionário comum é o caminho mais simples do ponto de vista de exigências, embora com todos os encargos trabalhistas. A escolha entre os três formatos muda custo, obrigação e risco, e depende do que a pessoa vai efetivamente fazer. Como os requisitos são detalhados e a descaracterização é o erro mais caro dessa decisão, converse com o seu contador antes de fechar o formato.

Quando vale chamar alguém

Definir a tarefa e acompanhar a pessoa é seu, e é justamente a parte que não dá para terceirizar.

Vale trazer ajuda para desenhar o que a pessoa vai executar. Na dúvida sobre contratar de verdade, leia preciso contratar alguém e não sei se é a hora. Quando o problema é não conseguir passar nada adiante, leia tudo depende de mim.

Como preparar a chegada do primeiro estagiário

  1. Encontrar uma tarefa semanal que você explique em meia hora Sem ela, o estagiário consome tempo em vez de liberar.
  2. Escrever a tarefa numa folha antes de contratar Se não consegue escrever, não vai conseguir explicar.
  3. Aceitar que os dois primeiros meses saem negativos Quem desiste antes perde o investimento inteiro.
  4. Gravar a primeira execução explicando em voz alta Poupa cinco repetições da mesma pergunta.
  5. Deixar todos os acessos prontos antes do primeiro dia Esperar acesso desperdiça a semana de maior disposição.
  6. Combinar dois horários fixos para tirar dúvida Evita a interrupção constante que irrita quem já está cheio.
  7. Definir por escrito o que ele NÃO faz Sem essa lista, todo pedido novo vira tarefa dele.
  8. Não colocar para atender cliente no começo Atendimento exige julgamento e o erro chega direto em quem paga.
  9. Verificar em dois meses se você parou de fazer aquilo Se os dois fazem, você duplicou em vez de delegar.
  10. Confirmar o formato com o contador antes de fechar Descaracterizar estágio gera vínculo com verbas retroativas.
Cleber Barbosa, consultor de marketing digital em Ribeirão Preto
Autor
Cleber Barbosa
Consultor de Marketing Digital, SEO e Tráfego Pago — Ribeirão Preto, SP

Vinte anos de marketing digital e 43 cases documentados. Trabalho com SEO técnico, tráfego pago, growth hacking e IA aplicada a negócios. Estagiário não resolve o que você não sabe fazer: ele executa o que você já sabe e não quer mais fazer. Escrevo estes roteiros com o que aplico em diagnóstico real.

Sobre o autor
Perguntas frequentes

Dúvidas sobre contratar estagiário

Vale a pena se eu não tenho tempo?

Só se existir uma tarefa semanal que você consiga explicar em meia hora. Sem isso, ele consome tempo em vez de liberar.

Quanto tempo até compensar?

Os dois primeiros meses costumam sair negativos, somando acompanhamento e correção. Quem desiste antes perde o investimento inteiro.

O que dar para ele fazer?

O que é repetitivo e verificável, o que você faz mal e sem gosto, e o que precisa de constância em vez de talento.

Posso deixar atendendo cliente?

Não no começo. Atendimento exige julgamento e o erro chega direto em quem paga, sem passar por você.

Estágio tem regra própria?

Tem lei específica, com exigência de vínculo com instituição de ensino, carga horária limitada e supervisão. Confirme com o seu contador.

Posso contratar sem ser estágio?

Pode, como funcionário júnior, e aí valem as regras trabalhistas comuns. São formatos com obrigações bem diferentes.

Você consegue nomear a tarefa agora?

Se você precisou parar para pensar, ainda não é hora de contratar ninguém: é hora de mapear o que você faz.

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